20 de out de 2016

[Desabafo]: Sobre oscilar entre o verão e o inverno — por Simone Pesci

Quando criança, eu sonhava com uma vida simples, onde teria todas as etapas preenchidas por sabores e dissabores: estudando, brincando, levando algumas chineladas (quando necessário), namorando, casando, tendo filhos, além de ser muito amada. Sonhos eram traçados, metas almejadas. Porém, ao decorrer de tantas novas descobertas (algumas boas e outras nem tanto), descobri que nem todos os sonhos se realizariam. 

Eu nasci e cresci numa família humilde, onde não precisava de muito para ser feliz, bens materiais não era tudo, eu e minhas irmãs éramos presenteadas com os brinquedos que mais desejávamos, mas eles teriam de ser conquistados e eram entregues apenas em datas especiais, tais como: aniversário, Dia das Crianças, Natal e também quando passávamos de ano na escola. 

Eu sou da era analógica e não digital, onde brincar de esconde-esconde e queimada na rua, era o ponto alto de uma infância regada em alegrias. Muitas vezes era castigada, ficando para fora de casa, pois depois de tanto chorar, implorando por mais alguns minutos de brincadeiras, ganhava outros tantos minutos imaginando que fosse passar a noite ao relento. 

Então veio a adolescência... Onde deixei de desfrutar daquela época mágica para viver o que pensava ser o meu primeiro amor: uma relação doentia, onde eu era a adolescente traída e reclusa, que viveu tal reclusão por mais de quatro anos. Quando me cansei, nem mesmo uma arma apontada foi suficiente para me convencer a continuar. E foi assim que coloquei um ponto final nesse amor doentio. 

Após tanta ponderação, tive a minha tão almejada liberdade, que durou mais de dois anos. E descrente de um amor sincero e sem cobranças, fui presenteada com um amor sincero que não me cobrava nada, apenas me amava. E graças a ele, durante mais de quatro anos, vivi o meu conto de fadas. E nem mesmo um câncer foi capaz de destruir essa linda história de amor. Acontece que a fragilidade do dia a dia venceu, e cada qual foi para o seu lado. Desta forma, foram mais alguns anos de liberdade: agora regados em baladas, bebidas, beijos e poucas transas. Nada tão importante a ponto de me fazer sentir o amor de novo.

E os anos foram passando... E alguns sonhos cessando, inclusive aquele de ter uma família como aquela que faço parte. Trabalhar e pagar contas passaram a ser prioridade, pois as coisas ficaram complicadas. Às vezes eu me deparava com reclamações de amigas: "Nossa, não consegui comprar aquela sandália que eu tanto queria"; Nossa, esse mês não deu para eu fazer aquela escova progressiva que eu te falei". Eu, por minha vez, pensava: "Nossa, como vou pagar aquela conta e comprar o resto das coisas que faltam em casa?"

Era nesse momento que caía na real, afinal eu também fora assim. Contudo, a vida resolvera me ensinar "um pouco mais" antes do tempo. Eu não me formei em nada, completei apenas o ensino  médio, pois nunca gostei de estudar, o que dificultou ainda mais a possibilidade de ter uma segurança nessa área da vida. E as coisas se complicavam: amigos questionavam-me sobre a minha tão estranha ausência. Eles mal sabiam que não sobrava dinheiro pra diversão, e até mesmo o dinheiro para o tão famoso Kit Churrasco, eu não tinha. 

E foi no desespero de uma vida sem sentido, que encontrei sentido na leitura. Desta forma, entrei de cabeça nesse mundo mágico. E depois de tanto viajar em histórias criadas por outras mentes, decidi colocar as minhas ideias em palavras. Afinal, seria assim que conseguiria desabafar minhas dores e alegrias; meus amores e desafetos... Estive "Entre o Céu e o Inferno", ouvi "A Voz do Meu Coração", viajei pela "Estrada da Morte"  e,  por fim, estou tentando encontrar a minha "Redenção". Por um tempo  essa foi a minha salvação, mas agora me sinto rasa: tanto na vida como na escrita. Já faz alguns anos que oscilo entre o verão e o inverno, numa depressão que me consome. E pra piorar, meses atrás (dentro de um supermercado), tive uma crise de pânico. Desde então só consigo interagir por redes sociais e mal saio de casa.

Eu juro que tento emergir dessa vida rasa e sem sentido, mas algo me deixa assim, ainda mais rasa. E por este motivo resolvi me desligar. Não sei até quando ficarei no fundo do mar, espero emergir o quanto antes com verdade e sabedoria. A propósito, tenho uma fé abalável, o que implica horas do dia discutindo com Deus. Sei que existem problemas bem piores que o meu, e isso me faz sentir vergonha. É nesse momento que peço perdão a Ele! Portanto, por não conseguir emergir, peço desculpas a todos: Deus, família, amigos e leitores. Eu juro que, de alguma forma, tentarei ao menos oscilar entre o verão e o inverno, embora anseio encontrar uma estação que perpetue em plenitude e para todo o sempre. Enquanto isso, aparecerei vez ou outra. E desejo que cada um de vocês oscilem na melhor estação e emerjam em plenitude. É isso!

Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta o nosso edifício inteiro. (Claric Lispector)

Abraços literários,
Simone Pesci

6 comentários

  1. Nossa!!! É triste, mas é lindo.
    Preciso ler e reler para aprofundar-me no sentido dessas belas palavras.
    Espero que supere seus problemas!!!

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  2. Si, seu relato me emocionou e me trouxe lembranças doces e dolorosas.

    Me identifiquei em algumas coisas.

    Tive uma infância feliz, mas boa parte dela vivi em hospitais devido a uma enfermidade.

    Também sou da era analógica, às vezes sinto falta de tanta coisa, da simplicidade com que eu e minha família vivíamos.

    Veio e a adolescência e a fase adulta, um mundo de cobranças e responsabilidades.

    Nunca conheci lugares fora da minha alçada por impossibilidade mesmo. Porém, os livros me salvam diariamente e me acrescentam como pessoa. Eles me motivam e me ensinam muito. Por isso, quando surgiu a oportunidade de trabalhar com isso, não pensei duas vezes, agarrei com as mãos.

    Também não estou passando por uma fase muito boa, mas todos temos momentos de altos e baixos. Temos que continuar lutando, perseverando com fé, acreditando que a esperança é o que nos move a seguir essa caminhada rumo à nossa felicidade e ao nosso bem-estar físico e emocional.

    Desejo que você supere mais esse obstáculo! Tenho vários amigos que estão passando pelo mesmo. A luta é difícil, mas você vai conseguir porque é uma guerreira.

    Beijos.

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    1. SIM, Carlinha! Emergir é necessário. Espero que você fique bem o quanto antes. Agradeço a força de sempre. S2

      Beijosssssss

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  3. Simone, você tirou estas palavras da minha alma. Lindo texto.
    "embora anseio encontrar uma estação que perpetue em plenitude e para todo o sempre."

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    1. Cristy, eu precisava fazer esse desabafo. Afinal, muitos confundem depressão e pânico com egocentrismo.

      Beijossssss

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