19 de jun de 2017

Pais e Filhos — por Simone Pesci

dia estava ensolarado. Em seu quarto haviam estátuas, cofres e todas as paredes estavam pintadas, uma arte particular, feita por uma garota aparentemente feliz. 

Ninguém sabia o motivo que a levou cometer tal desatino, jogando-se da janela do quinto andar. Aquilo, aos olhos alheios, não era fácil de se entender. 

 Dorme agora! É só um vento lá fora  A mãe sussurrava ao lado do caixão. 

Tudo era muito estranho, pois ela só queria colo, coisa que nem os pais entendiam. Às vezes pensava em fugir de casa, e quase sempre perguntava aos mais próximos: 

 Ei, posso dormir aqui com você? 

Ela tinha medo e muitos pesadelos, e por tais motivos permitia-se dormir depois das três, empenhando-se num tempo menor de sonhos ruins. 

 Um dia, quando tiver um filho, darei a ele nome de santo. Escolherei o nome mais bonito…  disse, encarando a si dentro do caixão. 

Tristeza. 
Desesperança. 
Loucura. 

Sentimentos intensos que a deixaram espiritualmente desvairada. 

Ela sabia que era preciso amar as pessoas de forma diferente, ou seja, como se não houvesse o amanhã. E que se parasse pra pensar, continuaria transloucada. 

Ela queria saber por que o céu era azul. 

Ela queria explicações sobre a fúria do mundo. 

Ela ansiava saber por que tivera como missão fazer o papel dos pais, quando, na verdade, deveria ser a filha. 

Ela morava com a mãe. 

Ela morava com o pai. 

Ela pedia a todos para que a visitassem. 

Ela se cansou e passou a morar na rua. 

Ela não tinha ninguém. 

Ela passou a morar em qualquer lugar. 

Como uma andarilha, morou em tanta casa que nem se lembrava mais. E, em alguns momentos, imaginava morar novamente com os pais. 

Ela era a gota d'água. 

Ela era o grão de areia. 

Ela vivia repetindo que os pais não a entendiam, mas, na verdade, era ela que não entendia os pais. 

Ela culpava os pais por tudo, e achava tudo um absurdo. 

"Eles são crianças como eu!", perdia-se em devaneios. 

Já ciente de sua condição espiritual, permitiu-se questionar-se: 

"O que seremos quando crescer?" 

Já não era tempo de pensar no futuro. 

Ela não era mais a gota d'água e nem mesmo o grão de areia. 

E ainda culpava a si e aos pais. 

 Dorme agora! É só um vento lá fora  Agora era o pai quem dizia as palavras. 

O caixão se fechou. 

E ela continuou a questionar-se sobre o céu azul e a fúria do mundo. 


[Texto inspirado na letra da canção]: Pais e Filhos, da banda Legião Urbana.

2 comentários

  1. TÔ MORTA COM ESSE TEXTO!
    AMEEEEEEEEEI!

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    1. Amigaaaaa, é mais forte do que eu! Escutar Legião Urbana me dá vontade de escrever. S2 Fico feliz que gostou do texto. \o/\o/\o/

      Beijossssss

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