2 de ago. de 2017

[Conto]: Uma vida a dois — de Júlio Damásio

Comprou-lhe uma mala nova para o velho sonho. Uma viagem de dez dias para uma cidadezinha qualquer do interior. O casal esperou a aposentadoria, os filhos crescerem e formarem suas famílias. 

Ele era razão, casamento perfeito, ela era emoção. Um não se via caminhando pela vida sem o outro. Na semana que antecedia o desejado programa, no momento do café da manhã, quando comia a fatia de pão caseiro que a esposa fizera, antes do elogio de sempre, sentiu fortes dores de cabeça, algumas poucas palavras e se foi… 

Depois do tempo da dor aguda do luto, ficou a dor crônica. Mas ela teve que reaprender a andar sem as mãos dadas com seu amado, a sorrir sem achar graça na vida, a se maquiar sem os elogios do companheiro. Aceitou o convite e foi morar com a filha, genro e netos. Com o dia a dia, distraia sua tristeza, encontrando no sorriso das crianças o motivo para os seus. Porém todas as noites, durante anos, depois de passar pelos quartos dos netos e beijá-los, despedia-se, simbolizando sua partida. Arrumava sua mala com algumas roupas, colocava debaixo da cama, pensando que aquela viagem curta das noites em que encontrava seu amor, poderia ser a viagem longa e definitiva ao encontro tão esperado. Rotineiramente pela manhã, ao abrir os olhos e identificar o seu quarto, ainda que desapontada, sorria. Não era atendida ainda daquela vez. Mas tinha como consolo que passara mais um dia que, no seu entender, era mais um passo na caminhada até seu companheiro. Levantava antes dos demais, fazia café, colocava o pão na mesa, acordava os netos, ia até o jardim e molhava as plantas. Duas vezes por semana, visitava um asilo com um livro de contos debaixo do braço, onde ia contar histórias para igualmente distrair a tristeza daqueles que não tinham netinhos para arrancar-lhes o sorriso. 

Em uma noite, fez o de sempre, beijou e se despediu dos netos antes de dormirem. Arrumou sua mala, deitou, sentia dores no peito, dormiu. Pela manhã, abriu os olhos, decepcionada, viu-se no seu quarto, chamou pelos netos, fez o café, colocou o pão na mesa, foi até o jardim, molhou as plantas, viu sua mala no carreirinho entre as flores, estranhou… Foi aí que ele apareceu e lhe falou: “Vamos embora, minha linda!” De mãos dadas, no sentido oposto da solidão, viajaram pelo caminho de luz até o estado da real felicidade. Júlio Damásio e esposa É minha homenagem a você, meu amor, Júlia Lopes. Foi um dos últimos que narrei, não estava rascunhado ainda. Queria escrever uma poesia, mas não sou poeta, amor. Então receba esse continho que você, como sempre, achou lindo. Entenda que de certa forma, sou a velhinha que a cada dia que passa dou um passo ao seu encontro. Não sei a distância, o tempo, mas um dia eu chego aí.


P.S: Conto escrito pelo autor/poeta Júlio Damásio, 
dedicado para sua eterna amada, Júlia Lopez. 


[Texto de]: Júlio Damásio
[Via]: Paraná Imprensa

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